80 visualizações |0 comentários

A cirurgia vascular e a angiologia são especialidades de grande relevância para a qualidade de vida das pessoas e o manejo adequado de algumas das doenças de maior alcance entre os brasileiros, como: varizes, trombose, doenças arteriais, aneurismas e diabetes. Apesar disso, parcela significativa da população ainda não tem pleno acesso a estas especialidades, tendo aumentados os riscos de agravamento de doenças.

Ampliar o atendimento pelo médico especialista no serviço público de saúde é uma das bandeiras da nova diretoria da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), cuja posse foi celebrada em 5 de fevereiro, na cidade do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, o novo presidente da entidade, o cirurgião vascular Julio Cesar Peclat, destaca a defesa profissional e a qualificação profissional do especialista como outras das prioridades da gestão e comenta o cenário imposto pela pandemia da covid-19.

O senhor toma posse em meio a uma pandemia que afetou enormemente os serviços de saúde. Qual sua avaliação sobre a saúde do Brasil e como as especialidades se inserem neste cenário?
Julio Cesar Peclat –
Infelizmente, nós temos dois universos paralelos na saúde do país. De um lado, a saúde suplementar, onde os pacientes têm acesso precoce a atendimentos médicos, às novas tecnologias e ao que há de melhor no mundo na medicina. De outro lado, temos a grande maioria da nossa população sendo atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que, no papel, é o melhor sistema público de saúde do mundo. No entanto, na prática, o que nós vemos é o sucateamento há muitos anos no que tange à saúde pública. São duas realidades completamente diferentes. Para dar um exemplo dessa distância, vamos falar um pouco sobre uma doença que acomete muitos brasileiros, principalmente a população de menos acesso econômico e social. Trata-se do pé diabético, diretamente relacionado à cirurgia vascular. Nós temos o cenário do diabético que faz a prevenção, com acesso à medicação e ao cirurgião vascular precocemente, e que não evolui com a úlcera plantar. Esse é o diabético que tem o acesso à saúde suplementar. Por outro lado, temos o diabético que não tem acesso à medicina privada, que depende exclusivamente do atendimento público. Esse paciente já vai chegar na emergência em condições muito piores, muitas vezes com gangrenas diabéticas. Nós temos, infelizmente, a legião dos amputados em nosso país, por falta de acesso à recursos desde o início da doença, com a falta do diagnóstico precoce e bom acompanhamento do tratamento. Esse cenário incomoda a todos nós, principalmente porque são pacientes que teriam uma evolução completamente diferente.

Como as especialidades vinculadas à SBACV podem contribuir nesse processo?
JCP –
Podemos contribuir muito na informação do público leigo em campanhas informativas, com o apoio das instituições públicas. Também podemos contribuir no acesso aos postos de saúde, centros especializados no tratamento do diabetes, em parcerias com outras sociedades afins, como a endocrinologia e a oftalmologia. A diabetes é uma doença sistêmica, cujo tratamento multidisciplinar é muito importante. Se nós tivermos o acesso desses pacientes facilitado pelo sistema público de saúde, conseguimos reverter esses números, que são terríveis.

Na sua avaliação, a cirurgia vascular e a angiologia recebem a merecida atenção dos gestores públicos e privados?
JCP –
É tão fácil fazer o diagnóstico precoce. No entanto, é preciso que isso ocorra em um sistema desenhado com estratégias bem determinadas e orientadas pelas sociedades científicas para que alcancemos bons resultados. É preciso continuidade. Não pode ser um projeto de governo, mas, sim, de Estado. Às vezes, o que eu sinto falta no sistema público de saúde é que passam os governantes e os projetos se perdem. E os gestores, muitas vezes, nem são médicos. Então, é importante a valorização do profissional médico e uma boa remuneração desse profissional no Sistema Único de Saúde. Os honorários estão extremamente defasados. São profissionais muitas vezes pouco valorizados e isso leva ao desgaste, fazendo com que esses profissionais se afastem. Então, o estímulo para que esse profissional atue da forma mais adequada são essas campanhas partindo do serviço público, nos âmbitos federal, estadual e municipal. É fundamental para que a gente possa melhorar esses números.

Como ampliar o reconhecimento da especialidade por quem faz a gestão do SUS e por quem faz a gestão dos planos de saúde?
JCP –
Esse reconhecimento deve ser bilateral. Nós vamos buscar isso incessantemente durante nossa gestão. Não podemos só esperar que aconteça, precisamos fazer acontecer. Então, no que depender de mim e da diretoria da SBACV, os políticos se preparem porque nós vamos ficar em cima nos próximos dois anos. Vamos fazer a nossa parte, dar números e argumentos. Seremos insistentes nessa busca.

Quais são as lições que a pandemia deixa para o país no campo da saúde?
JCP –
São muitas. A covid-19 se mostrou uma doença vascular que agride diretamente os vasos, levando à trombose, embolia pulmonar, amputações, o que tem trazido novos aprendizados. Aprendemos, por exemplo, que os anticoagulantes, quando bem indicados, mudam o cenário da doença. Aprendemos que o corticoide é uma droga importante nesse tratamento. Aprendemos, por exemplo, que a prevenção e o atendimento multidisciplinar são fundamentais e que, sem dúvida nenhuma, as vacinas vieram para nos proteger e trazer luz ao fim desse túnel. Então, mais do que nunca, essas campanhas de vacinação, de prevenção, e mantendo todos os cuidados de distanciamento, uso de máscara e álcool em gel, são importantes ainda até o final dessa pandemia. Eu espero e tenho a convicção de que estamos muito perto do fim.

Nós tivemos milhares de mortos, mas também milhões de pessoas que se recuperaram. Pelo que o senhor me diz, o cirurgião vascular e o angiologista tiveram papel fundamental para a recuperação dessa multidão. É isso?
JCP –
Exatamente. Infelizmente, a primeira onda de trombose, tanto das veias quanto das artérias, foi uma coisa assustadora. Dos profissionais de saúde que lidaram diretamente com o combate, na primeira linha, numa guerra, os cirurgiões vasculares são a infantaria. Nós travamos uma luta diária com a covid. Nossa equipe é referência em grandes hospitais, onde tratamos muitos pacientes com a doença. Vivemos a angústia de operar pacientes contaminados e depois encontrar nossas esposas, filhos e mães. Passamos por esse distanciamento também dos familiares. Sem dúvida nenhuma, o cirurgião vascular esteve e está na linha de frente desde o início dessa pandemia. Fica aqui o meu respeito e agradecimento a cada cirurgião vascular e angiologista do Brasil, e a todos os médicos e profissionais de saúde.

Estamos entrando em uma nova fase da pandemia. Há alguma recomendação que possa ser feita ao cidadão do ponto de vista da saúde vascular?
JCP –
A principal recomendação é a vacina. Eu não consigo compreender esse negacionismo às vacinas. A única forma comprovada de proteção à essa doença, que em breve se tornará uma endemia, é a vacina. Até lá, máscara, distanciamento e álcool em gel é o que se pode recomendar. Eu tive covid duas vezes: na primeira onda, com um quadro muito desgastante; e recentemente, no final do ano passado, com um quadro muito brando. Eu tenho certeza que foi por conta das vacinas. Como médico, profissional da saúde e cidadão, o que a gente recomenda é a vacinação.

Que mensagem gostaria de deixar para o médico associado?
JCP –
Eu digo: tenham a certeza de que essa diretoria trabalhará 24h por dia para, ao final de dois anos, deixar um legado na construção de um caminho melhor para todos nós. Vamos trabalhar em cima de dois pilares fundamentais. O primeiro é o da educação médica continuada, que será o mantra na nossa gestão. Vamos buscar a oferta de treinamento de forma prioritária para todos os associados e a modernização da prova do Título de Especialista da SBACV. Desde o projeto da nossa eleição, estamos construindo um modelo de mudança e modernização da prova, em breve os senhores terão conhecimento. O outro pilar é composto pela busca por melhores honorários médicos e a defesa profissional no geral. Essa é uma bandeira nossa, o perfil e o DNA dessa diretoria é a defesa profissional. Quando fui diretor na Regional do Rio de Janeiro, o presidente naquele momento citou cada um dos diretores com as suas respectivas características. Quando se referiu a mim ele disse: “Peclat é um entusiasmado”. Naquele momento eu não entendi se se tratava de um elogio ou se o entusiasmo seria uma falha, mas hoje eu tenho certeza que ele me elogiou muito naquele momento. Nós precisamos, mais do que nunca, do entusiasmo, contagiando todos os associados da SBACV. Vamos trabalhar assim, na nova diretoria, e estimular o mesmo comportamento junto aos cirurgiões vasculares. Todos ganharemos ao contarmos com o entusiasmo.

Enfim, como o senhor e sua diretoria se sentem diante dessa fase que se inicia?
JCP –
Eu tenho uma honra enorme de poder nesse momento assumir esse compromisso, com cada um dos associados da nossa entidade. Para dar as respostas esperadas, faremos uma gestão inclusiva, onde a inteligência coletiva, e não o individualismo, vai falar mais alto. Todos os associados da SBACV terão voz e estamos 24h disponíveis – eu e nossa diretoria. Como já disse, trabalharemos fortemente sobre dois pilares: a educação médica continuada e a defesa profissional com a valorização do honorário médico. Espero que o entusiasmo, a experiência e a força de vontade falem mais alto, e que ao final de dois anos possamos entregar para vocês um trabalho bem feito, bem construído e coletivo. Muito obrigado pela confiança de cada um!

Compartilhar

Publicar comentário

Ir para o Topo